Da escola à comunidade: experiência do Eco-Escolas na Bahia ganha destaque em plataforma global da UNESCO

Publicação da Greening Education Partnership (GEP) destaca o trabalho da Casa Familiar Rural de Presidente Tancredo Neves e mostra como a educação para a sustentabilidade mobiliza jovens, famílias e comunidades rurais
A experiência brasileira de educação para a sustentabilidade desenvolvida na Casa Familiar Rural de Presidente Tancredo Neves (CFR-PTN), no Baixo Sul da Bahia, ganhou destaque internacional com sua publicação na plataforma da Greening Education Partnership (GEP), a Parceria Global para a Educação Verde, liderada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).
Intitulada From School to Community: Rural Youth Driving Sustainability through Education in Brazil (Da escola à comunidade: jovens rurais impulsionam a sustentabilidade por meio da educação no Brasil), a publicação apresenta como uma escola técnica rural de ensino médio integra a sustentabilidade à formação dos estudantes e incentiva a aplicação dos conhecimentos adquiridos junto às famílias e às comunidades.
Integrante do Programa Eco-Escolas, coordenado internacionalmente pela Foundation for Environmental Education (FEE), e do Programa de Educação Ambiental (PEA-UNESCO), a instituição demonstra como a educação ambiental pode ultrapassar os limites físicos da escola e contribuir para transformações concretas nas comunidades. Por meio da metodologia dos Sete Passos do Eco-Escolas, as instituições participantes desenvolvem ações estruturadas de educação para a sustentabilidade, alinhadas aos objetivos da Greening Education Partnership (GEP). Dessa forma, o programa constitui uma das vias pelas quais as escolas podem contribuir para os objetivos da iniciativa global da UNESCO, fortalecendo a conexão entre educação ambiental, participação estudantil e ação local.
Pedagogia da alternância: aprender na escola e transformar a comunidade
Na Casa Familiar Rural de Presidente Tancredo Neves, o processo de aprendizagem está diretamente conectado à realidade dos estudantes. A instituição adota a pedagogia da alternância, metodologia que combina uma semana de atividades escolares com duas semanas nas comunidades de origem dos alunos.
Durante esse período, os estudantes alternam a formação técnica em sala de aula com a aplicação prática dos conhecimentos nas propriedades rurais familiares. Ao retornarem para casa, levam a missão de desenvolver projetos e soluções que atendam às necessidades de suas comunidades.
Essa dinâmica aproxima o conhecimento técnico da realidade do campo e cria oportunidades para que os jovens participem ativamente da construção de alternativas para os desafios socioambientais de seus territórios.
“Nossos alunos não apenas aprendem sobre sustentabilidade, eles a vivenciam, a aplicam e a compartilham com suas famílias”, afirma Katiane Gomes, coordenadora pedagógica da instituição.
A proposta também fortalece o papel dos estudantes como multiplicadores de conhecimento, capazes de compartilhar práticas sustentáveis com outras pessoas e estimular a participação das famílias na transformação ambiental de suas comunidades.
Sustentabilidade como parte da aprendizagem cotidiana
Na CFR-PTN, a sustentabilidade não é tratada como uma disciplina isolada, mas como parte integrante das atividades escolares e da formação técnica dos estudantes.
A escola desenvolve práticas relacionadas à agroecologia, ao manejo do solo e da água, à horticultura, à meliponicultura, atividade de criação de abelhas sem ferrão, e aos sistemas agroflorestais. Essas experiências transformam o ambiente escolar em um espaço de experimentação, no qual os conteúdos teóricos são relacionados a situações reais e às necessidades da produção rural.
Essa abordagem está alinhada ao primeiro pilar da Parceria para a Educação Verde, denominado Escolas Verdes, que propõe transformar os espaços educacionais em ambientes de aprendizagem e ação ambiental.
O envolvimento dos estudantes nas atividades práticas também contribui para ampliar a compreensão sobre o papel de cada pessoa na conservação dos recursos naturais.
“Além da aprendizagem teórica, o Programa Eco-Escolas também proporcionou experiências práticas significativas, incluindo ações de conservação ambiental, iniciativas de reciclagem e atividades de conscientização dentro e fora da escola. Essas experiências mudaram a forma como vejo meu papel no cuidado com o meio ambiente”, compartilha Rayne Santos, estudante do 12º ano do Programa Integrado de Ensino Médio Técnico.
As experiências de campo também são incorporadas a disciplinas como Biologia, Química e História. Com isso, a sustentabilidade passa a integrar diferentes áreas do conhecimento, conectando questões ambientais, sociais e produtivas aos conteúdos curriculares.
Essa integração corresponde ao segundo pilar da iniciativa global, o Currículo Verde, que busca incorporar a educação climática e ambiental aos processos de ensino e aprendizagem, em vez de restringi-la a atividades pontuais.
Jovens que levam práticas sustentáveis para suas famílias
A aprendizagem continua nas comunidades de origem dos estudantes. Ao retornarem às propriedades familiares, os jovens aplicam os conhecimentos adquiridos na escola e compartilham práticas que podem contribuir para uma produção rural mais sustentável e para a conservação ambiental.
Entre as iniciativas estão melhorias no manejo do solo, introdução de técnicas de agricultura sustentável, construção de sistemas biológicos de tratamento de esgoto e ações voltadas à conservação da biodiversidade.
A atuação também se estende a atividades coletivas promovidas pela escola, como campanhas de reflorestamento, distribuição de mudas e dias de mobilização comunitária. Essas ações aproximam estudantes, famílias e comunidade, ampliando o alcance da educação ambiental para além do espaço escolar.
A experiência se relaciona ao terceiro pilar da Parceria para a Educação Verde, as Comunidades Verdes, que reconhece a importância da participação comunitária na construção de sociedades mais sustentáveis.
Ao envolver as famílias na aplicação dos conhecimentos, a escola fortalece a troca de experiências entre gerações e contribui para que as práticas ambientais sejam incorporadas ao cotidiano. Assim, a educação deixa de ser uma experiência restrita aos estudantes e passa a estimular processos coletivos de aprendizagem e transformação.
Eco-Código: um compromisso coletivo com a sustentabilidade
Outro elemento importante dessa experiência é o Eco-Código da escola, elaborado coletivamente por estudantes, professores e funcionários. O documento funciona como uma referência compartilhada para orientar decisões e comportamentos no cotidiano escolar.
Sua construção está fundamentada nos cinco P ‘s do desenvolvimento sustentável: Pessoas, Planeta, Prosperidade, Paz e Parcerias. Esses princípios conectam as dimensões sociais, ambientais e econômicas da sustentabilidade e orientam a comunidade escolar na definição de compromissos comuns.
Para os estudantes que integram o Comitê Eco-Escolas, essa construção coletiva contribui para consolidar uma cultura de responsabilidade compartilhada.
“Em vez de ações isoladas, criamos uma cultura comunitária que define nossa ‘Casa Comum’ como o principal sistema do qual todos cuidamos juntos”, explicam Ana Luiza Santana, Eduardo Ramos, Alessandra Rocha e Luana Neves, integrantes do Comitê Eco-Escolas.
O Eco-Código reforça, assim, a importância da participação de toda a comunidade escolar na construção de uma identidade coletiva comprometida com a sustentabilidade.
Resultados que ultrapassam os limites da escola
Segundo a publicação da Greening Education Partnership, os resultados dessa abordagem já são percebidos na participação dos estudantes, no envolvimento das famílias e na relação entre aprendizagem e realidade local.
Os jovens assumem um papel mais ativo na identificação de problemas e na implementação de soluções, enquanto o processo educativo se torna mais significativo e conectado às experiências cotidianas.
A metodologia também favorece o desenvolvimento de competências como pensamento crítico, colaboração e responsabilidade. Ao mesmo tempo, a participação crescente das famílias amplia o alcance das ações e cria um efeito multiplicador nas comunidades.
Apesar dos avanços, a publicação aponta desafios que ainda precisam ser enfrentados, especialmente em relação à disponibilidade de recursos, à formação de professores e ao apoio político para fortalecer iniciativas de educação para a sustentabilidade.
Esses aspectos evidenciam a importância de políticas, investimentos e processos de formação que permitam ampliar e consolidar experiências educacionais comprometidas com a transformação socioambiental.
Um modelo integrado para a Educação Verde
A experiência da Casa Familiar Rural de Presidente Tancredo Neves demonstra como os três pilares da Parceria para a Educação Verde podem se complementar: escolas que incorporam práticas sustentáveis ao seu funcionamento, currículos que integram questões ambientais às diferentes áreas do conhecimento e comunidades que participam ativamente da aplicação e da disseminação dessas práticas.
Ao conectar esses elementos, a instituição constrói uma abordagem na qual a sustentabilidade não se limita a projetos isolados, mas integra o processo educativo e a relação da escola com seu território.
A publicação internacional evidencia a contribuição de uma experiência brasileira para o debate global sobre o papel da educação diante dos desafios ambientais e climáticos. Também reforça a importância de valorizar iniciativas que reconhecem os estudantes como protagonistas e aproximam o conhecimento das realidades locais.
Para o Eco-Escolas Brasil, a experiência da CFR-PTN destaca o potencial da educação ambiental quando integrada à formação dos estudantes, à participação das famílias e à vida comunitária.
Assista ao vídeo e conheça a experiência: From School to Community: Rural Youth Driving Sustainability through Education in Brazil
Leia a publicação completa na plataforma da Greening Education Partnership: greeningeducation.org